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Somos todos contadores de histórias, mas estamos perdendo o hábito da contação de histórias.

 

escreve Tennyson Pinheiro no Capítulo 12 de Design Thinking Brasil e, neste mesmo capítulo, apresenta a afirmação de Steven Spielberg: “As pessoas desaprenderam a contar histórias. Histórias não têm mais um meio e um fim. Elas agora têm um início que fica continuamente sendo iniciado.”

Nada é capaz de substituir a experiência de estar em campo convivendo com outras pessoas, mas uma história bem contada é, sem dúvida, uma forma de chegar bem perto disso. (…) Na pré-história, para o homem das cavernas, contar boas histórias não era uma regalia de criativos, era uma necessidade de sobrevivência. A contação de histórias representava a única maneira de propagar ensinamentos de geração em geração.” E Tennyson segue abordando um fato que está presente em nossos tempo, muito mais do que deveria – ao meu ver: “A era da informação inundou o mundo de dados e pôs um fim nisso (contação de histórias). Nos tornamos viciados em citar fatos em vez de trazer à tona as histórias que esses fatos sustentam.” (Pinheiro, 2011, p. 93-94)

Parece que a tecnologia busca simplificar os trabalhos, mas talvez esteja contribuindo para uma certa “preguiça mental” das pessoas que acabam por buscar respostas imediatas sem nem mesmo raciocinar para compreender o que verdadeiramente buscam. A Formação de Juízo de Valor acaba por ficar segmentada, fragilizada e quiçá sem consistência. É como a brincadeira do telefone sem fio, a cada mensagem repassada mais ruídos assolam e contribuem para a distorção da mensagem original.

Saber contar uma história é uma dádiva e está bastante relacionada aos encontros das pessoas, famílias e amigos em torno de uma fogueira, compartilhando acontecimentos, repassando conhecimentos e propagando suas culturas.

Em uma belíssima entrevista transmitida pelo programa Conta Corrente da Globo News no início do Século XXI com a Anita Roddick, fundadora da The Body Shop; uma pessoa que muito admirei e que tive a oportunidade de conversar com ela na época do lançamento de seu livro Business as Unusual (autografado!), época em que pensava em abrir a primeira The Body Shop no Brasil, mas a Anita me disse que ainda não era o momento para isto devido a cultura na percepção de valores dos produtos da The Body Shop e a compreensão de que parte do valor pago é direcionado para pesquisas e causas sociais sendo desta forma seus valores eram nominalmente mais elevados; Anita ressalta na transcrição abaixo a sua preocupação e valorização com a preservação da contação de histórias:

 

“Contar história é a base da educação em todos os lugares em que estive. Quando você entra na primeira Body Shop, vê os produtos nas prateleiras com pequenos cartões com explicações sobre onde foram feitos, porque são diferentes, vemos no contar a história de onde vêm os produtos, de quem deu as informações. Contar histórias é da natureza feminina, é a maneira de a mulher passar seus conhecimentos. É mágico! Quando vai para uma comunidade de qualquer país e fala com mulheres de 80 anos e pergunta sobre nascimento, casamento e morte: ‘O que usa no seu corpo quando está prestes a casar? E quando vai ter um bebê? Como protege seu corpo…’ Para tudo isso elas sabem as respostas. Homens não estão interessados nisso. Contar histórias vem do coração. Sempre foi assim. Em qualquer comunidade, se perguntarmos às avós: ‘Como isso funciona? Como você lavava seu cabelo quando sua avó estava viva?’ Esse tipo de conhecimento não está sendo transmitido, pois tudo envolve tecnologia e ciência. Então contar histórias … se voltarmos ao passado, vendo o que ocorreu antigamente, eram ideias frequentes, trabalhamos com antropólogos que eram fascinantes. Tiramos sabedoria da população pré-industrial, não dos cientistas, e sim dos que vivem em fazendas.

Para saber contar histórias é preciso desenvolver o hábito e o respeito em fazer uso de todos os nossos sentidos, para que possamos “ver e enxergar”, “ouvir e escutar”, “sentir, sonhar e acreditar”, porque há tantas pessoas, ressalta Zuleica Medeiros, que olham e não vêem, ouvem mas não escutam.

Na Década de 1990 eu li em alguma obra um texto maravilhoso de Constantin Stanislavski – Ver como um artista vê -, copiei o texto em um caderno com o nome do autor e lamentavelmente não registrei a fonte de onde encontrei. Tinha em minha memória que havia sido no livro Ser Criativo de Stephen Nachmanovitch, indicado por Alex Periscinoto, porém – quando voltei a procurar – não encontrei neste livro. (Aqui aprendi a importância de referenciar bem nossas leituras e pesquisas)

Este texto foi publicado por Stanislavsky (criador do método de representação teatral) no Manual do Ator, publicado pela Martins Fontes em 1988 em sua primeira edição brasileira, na página 115 quando aborda “Observação”. A tradução do Manual do Ator é diferente da que tenho registrada comigo e que gosto tanto e compartilho com vocês logo abaixo. É, ao meu ver, o texto que melhor reflete o que é ser um bom profissional:

 

Ver como um artista vê, de Constantin Stanislavski

“Um ator deveria ser um observador não apenas no palco, mas também na vida real. Ele deveria se concentrar com todo o seu ser em qualquer coisa que atraia sua atenção. Ele deveria olhar para um objeto não como qualquer passante de mente ausente, mas de forma penetrante. De outra forma todo o seu processo criativo se mostrará desequilibrado e não terá relação com a vida…

…As pessoas comuns não têm idéia de como observar a expressão facial, o olhar; o tom de voz, para compreender o estado de espírito das pessoas com quem conversam. Elas nem captam ativamente as complexas verdades da vida nem escutam de modo que possam compreender o que ouvem. Se pudessem fazer isso, a vida, para elas, seria melhor e mais fácil, e seu trabalho criativo incomensuravelmente mais rico, melhor e mais profundo…

…Como podemos ensinar às pessoas que não observam a perceber o que a natureza e a vida estão tentando lhes mostrar? Antes de tudo, elas precisam ser ensinadas a olhar, ouvir e escutar o que é belo… Nada na vida é mais belo do que a natureza, e ela deveria ser objeto de constante observação… E não evite o lado mais escuro da natureza. Procure por ele nos pântanos, no lodo dos oceanos, em meio às pragas de insetos, e lembre-se de que por detrás desses fenômenos há beleza, exatamente como no amor há desamor.”

Este é um texto tão lindo e tão simples que dispensa maiores explicações e assim sugiro que pensemos em seu verdadeiro significado e em como colocá-lo em prática no nosso cotidiano. Esta prática diária enriquecerá nossas percepções e certamente influenciará em nosso potencial criativo e inovador.

Tennyson Pinheiro também apresenta no início do Capítulo 20 de Design Thinking Brasil a descrição de uma casa persa de café pelo explorador francês Jean Chardin, no Século XVII. Como informe, a primeira casa de café foi fundada em Damasco, capital da Síria, em meados de 1530. Segue a descrição:

“As pessoas se engajam em conversas, era um lugar onde notícias eram espalhadas e aqueles interessados em política se juntavam para criticar o governo, de maneira livre. Jogos inocentes, lembrando a dama e o xadrez eram jogados. Em complemento a isso, religiosos e poetas se revezavam na contação de histórias…”

 

[continua em breve]

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